Conivência x Convivência: por que morar na favela não é sinônimo de apoio ao crime

Como se não bastassem os desafios implicados na vida de quem mora na favela, é constante o constrangimento de ter que provar, dentro e fora do território, em casos de abordagem policial ou identificação de endereço para ingressar no mercado de trabalho, que morar em lugares onde haja o controle de facção A, B, C ou milícia não significa que o morador ou a moradora, por mais que tenha algum parentesco ou proximidade, apoie seu ente querido.

Faz-se necessário esclarecer as diferenças entre convivência e conivência para não transformar em senso comum a prática do racismo ambiental imposto à população favelada, que frequentemente é acusada de apoiar ou encobrir criminosos, mesmo sabendo que as forças que dominam não pedem licença para operar seus métodos. Ainda que não haja ameaças declaradas, o famoso ditado manda quem pode, obedece quem tem juízo pode ser classificado como provérbio da favela, sabedoria popular ou como bem quiserem chamar.

Nenhuma favela é igual. Cada território tem seus costumes, o que influencia a forma como as relações, sobretudo entre lideranças comunitárias, religiosas e outras, são constantemente associadas ou colocadas sob suspeita de manter relações com esses grupos paramilitares.

Os símbolos carregados pelas marcas de roupas, gírias e outros códigos aprovados e proibidos com a mesma intensidade de periculosidade podem significar vida ou morte quando se atravessa a fronteira despercebido usando o código do outro lado. Isso, porém, não faz do usuário dessas regras um conivente com o sistema que as impõe, mas sim alguém que convive em comunidade, no sentido de coletividade, não podendo permanecer nela e desobedecê-la, sob risco de penalidades que ninguém, com juízo, se arriscaria a enfrentar, como a parábola deixa claro, sem margem para dúvidas.

Ser morador de favela e conseguir transitar entre essas fronteiras é um risco elevado, relevado apenas a determinadas representatividades que se sobrepõem, como artistas, professores, profissionais da saúde, alguns servidores públicos, determinados influenciadores e, claro, jogadores de futebol, que são as maiores referências em moda, condição financeira e estilo de vida.

Nos anos 1990, Cidinho e Doca, da Cidade de Deus, escreveram o Rap da Felicidade. O trecho que canta a tristeza e a alegria que caminham lado a lado resume o sentimento de quem convive entre violações de direitos cometidas tanto por agentes públicos de segurança quanto por forças locais. Ainda assim, seguem a rotina de pegar transporte público e fazer a máquina do capital girar, porque o show tem que continuar.

O olhar de quem reporta essa rotina nos meios de comunicação precisa assumir, com urgência, a responsabilidade de não generalizar nem tratar como coniventes os moradores que não compactuam, mas que tampouco denunciam, por razões óbvias. É preciso lembrar o que nunca deve ser esquecido: os códigos, as regras, saber identificar, respeitar e não transgredi-los pode significar a vida ou a permanência de quem habita esses territórios. Em sua grande maioria, são pessoas pobres e pretas, desprovidas econômica e socialmente, mas que zelam por seus nomes, suas reputações e, sem dúvida alguma, por suas vidas e as de seus familiares, e que sonham por dias melhores.

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